sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Sacrilege.



Quem é você?

...

Eco - co - co - vo - o - vo - cê - co - co - o.

De onde você veio?
Para onde você vai?
O que você está fazendo aqui?

Num insólito refletir, numa instrospecção dialética regulamentar auto-questionante, um Homem, em dado momento da história, propôs-se as questões sobrepostas. A partir daí, surgiu o nada que alguns encaram como tudo.
Quando decidi escrever - mais uma vez - sobre religião, eu claramente tive a certeza de estar pisando num campo minado. Minha opinião diverge, em todos os aspectos, de todas as que eu conheço. Talvez seja uma tentativa de evadir do sistema.
Não desacredito das crenças alheias, ainda que não possa dizer, também, que acredito. Eu entendo a capacidade mental humana como algo muitíssimo além do conhecido, do esperado e é por isso que eu ratifico a qualquer momento todas as minhas teses a respeito da inexistência de uma divindade.
Não estou discursando a fim de persuadir outrém de que estou certo, muitísimo pelo contrário: como sempre, estou me submetendo a um julgamento que escolhi, o seu.

Deu-se a invenção de uma divindade, como explicação para as catástrofes e para os milagres, para a riqueza e a pobreza; como ente de transfiguração de uma realidade sóbria numa conformidade regrada a preconceitos e dogmas. Deus está aí, sempre, atendendo a preces quando da ocasião de coincidências e fazendo o melhor para o fiel quando a dinâmica do mundo julga que o melhor é a infelicidade. Entre tabus, extorções, desistências, fanatismo, a imagem de um ser superior, de um governante máximo, foi se consolidando como cimento que fortalecesse as sinapses neuronais, tanto para os que precisavam de explicações sobre o mundo quanto para os que só seguiam a massa. Deus condenou à morte incontáveis pessoas durante toda a história? Deus sorteou, em sua roleta divina, quais as pobres almas que deveriam fenecer na miséria por anos, nesse mundo desigual, e quais as que poderiam esnobar quaisquer outras com suas fortunas utilizadas somente para o próprio bem? Deus faz longos relatórios sobre o comportamento de suas criaturas durante a vida para decidir para onde deve mandá-las no final? De minhas mal- frequentadas aulas de catecismo, lembro-me que a jutiça divina é igual para todos e que consta, nos tais dez mandamentos, aquela coisa de amar ao próximo como a si mesmo. Deus que me perdoe, mas não faz-se valer nenhuma de suas intenções sob sua própria gestão.

Eu não acredito em milagres, não acredito em Arca de Noé, não acredito em vida eterna - aquela que vem depois da morte - tampouco em ressurreição. Não acredito na necessidade de qualquer coisa que seja para a existência do mundo, da vida, da morte, da felicidade...

Eu posso dizer que uma palavra do presente texto expressa claramente o motivo de minha descrença: conformidade. Me enerva a maneira de alguns de se acomodar aguardando uma coisa que, a meu ver, nunca chegará. Em suma, não condeno seguidores de nenhuma religião - e fico feliz de ver como todos se respeitam (embora creiam em coisas diferentes e todas elas sejam contraditórias e sejam verdades absolutas) -, só imagino que a maioria teria uma lista muito maior de realizações se preterisse a calmaria em prol da busca.


Me disseram uma vez que a vida não é só essa existência linear, que isso não é motivo suficiente pra viver, que não podia ser. Eu já disse isso uma vez, em outro texto: o mal de nós, seres humanos, é pensar!
Meus motivos pra viver? Minha mãe, minha família, minha profusão de amigos, as pessoas que gostam de mim, todas as pessoas com quem ainda vou me encontrar, o conhecimento, todos os lugares que eu ainda vou visitar, tudo o que eu ainda vou comer, o sol, a lua, o mar, a realização dos meus sonhos e o nascimento de outros. A vida me motiva. Minha vida consta dessa curiosa edificação de momentos, sentimentos, abstrações, desejos, convergindo para que muitos "Ele teve uma vida feliz!" façam-se audíveis quando meu corpo não tiver mais resistência e começar a originar a morte sob a terra, de onde todos viemos e pra onde havemos de voltar.




Eu não sei bem a resposta da pergunta que fazia (...) Nem conheço essa resposta, se quer mesmo que lhe diga. É difícil defender só com palavras a vida, ainda mais quando ela é essa que vê, severina. Mas, se responder não pude à pergunta que fazia, ela, a vida respondeu (...) E não há melhor resposta que o espetáculo da vida! Morte e Vida Severina-João Cabral de Melo Neto

6 comentários:

Lívia disse...

Sempre há!

Jaci Macedo disse...

Sempre há uma luz no fim do túnel. Sempre há um motivo para ser você mesmo, e feliz.

beijos, coração.

onzepalavras.com disse...

Que imagem forte. E em plena sintonia com o texto impregnado de agonia e insatifação. E não são esses os sentimos que nos fazem escrever e transformar a dor?

Obrigada pela visita e comentário. Para acessar seu blog com mais rapidez, adicionei o link na lista de meus blogs amigos.

Ana

Roberta Mendes disse...

O perigo de trancar-se não é jogar a chave fora e, sim, perdê-la dentro. Tenha sempre um giz à mão com quê riscar a porta na parede indivisa.

Angélica Lins disse...

Entrei, li, permaneci aqui por algum tempo...
Depois, o silêncio e o barulho das tuas palavras ficaram a reverberar.
Gosto de ler o que mexe comigo, o que me tira do costumeiro e me sacode para o vazio fértil.

Ler-te teve esse efeito.
Deixo-te um abraço meu.

Anônimo disse...

Fernando! Que beleza de texto é este!!!!! Apaixonei-me pelas palavras bem colocadas e de grande sensibilidade. Parabéns! NUNCA deixe de escrever. Bj. Erika