segunda-feira, 19 de abril de 2010

Quem conta, um ponto aumenta. Um Conto:



E ela descia, a pé, todos os dias, as ladeiras de sua vida sofrida - mais pelos outros que por ela.

Muitos hostilizavam-na, é verdade; mas acontecia que a maioria das pessoas penalizava-se com tudo por que passava a pobre Islaine, negra de pouco mais de 20 anos, mãe de dois filhos - um casal de gêmeos - e, supostamente, mulher da vida.

Sofriam mais que ela, sim, pois os comentários depravados que rolavam a seu respeito costumavam morrer na boca de uns e outros que tentavam protegê-la. Comentários sutilmente removidos das frestas dos dentes com fio dental. Sutilmente demovidos, embora não tivessem nem mesmo um quê de sutileza.

Só à noite é que costumavam vê-la deslizar por aqueles degraus de escadas muito mais volumosas que o próprio morro, imperativas em sua existência essencialmente efêmera, descendo a Ladeira da Conceição em direção ao ponto onde supunham que ela ficava. Aquela noite, ela vestia um conjunto de couro vermelho que mais pareciam dois pedaços de pano: o top, que mal cobria a extensão central dos seios de Islaine, deixava-lhe ainda as costas praticamente nuas; a saia era justa e impediria - não fossem a prática e a desenvoltura da mulher - qualquer movimento além de respirar, além disso, era muito curta, ressaltando portanto os contornos da parte inferior de seu corpo. Trazia também uma meia-calça de renda e botas de cano alto, ambas, como a bolsa, pretas.

Não era difícil se encantar por Islaine. Nas poucas vezes que saia durante o dia, ela era agradabilíssima com todos, educada como jamais havia-se visto no Morro do Buriti. Uma dessas pessoas com quem é fácil conviver superficialmente, durante uns primeiros momentos; dessas que se tornam difíceis, impenetráveis, inflexíveis e irremediavelmente detestáveis com o tempo. Mas faziam apenas alguns meses que ela se mudara para aquela casa de dois cômodos no alto da ladeira, ainda não houvera tempo de se apresentar tão impostora de si mesma e, por isso, ainda era querida por muitos e muitas - estas são uma explícita referência àquelas mulheres de sexualidade duvidosa, que não eram poucas.

Eu gostaria de não contar essa parte, mas, embora estimada por alguns, ela era abominada por outros. E era daí que surgiam os rumores desrespeitosos para com a jovem. Alguns homens chegavam mesmo a falar quanto dinheiro ela havia cobrado para sair com eles. Falavam que era muito boa de cama, safada como se esperaria de quem quer que fosse de seu nível; mas especulava-se que não sabia fazer sexo oral, que parecia ter nojo. "Que diabos! Uma piranha preta com nojo de botar a boca...", disse o homem na mesa do canto no bar do seu Gastão (Gastão é um nome que nunca me ocorrera para quaisquer de meus personagens, mas na última semana eu me apaixonei por um tal Gastão Fortes - protagonista de um conto alucinante, embora sem final -, homem de fibra e dignidade ímpares, que em nada tinha a ver com o dono do nosso bar).

Os filhos de Islaine também saiam pouco e, quando estavam na rua, não se misturavam com os outros de sua espécie... aliás, idade. Mesmo assim, eram considerados pedras preciosas na comunidade, pela polidez com que se dirigiam aos mais velhos, pelo desempenho exemplar que tinham na escola, pela forma como se destacavam positivamente em tudo o que faziam. Era mesmo uma família com poucos lugares onde apontar defeitos. E por isso é que todos os invejosos plantonistas faziam todo o esforço possível para questionar a retidão das atitudes de Islaine.

Ninguém entendia bem como e com quem ela tivera os filhos, já com uns sete ou oito anos. Imaginavam que ela tivesse engravidado com uns dezesseis anos, o que ficava cada dia menos absurdo, e nem conhecesse a identidade do pai, pela multiplicidade de parceiros que achavam que ela já tivera.

Um dia, dona Carlota, uma velha mãe-de-santo, encontrou com Islaine na feira. Ainda era bem cedo e a barraca de frutas onde estavam não tinha outra pessoa a não ser as duas e a vendedora. Dona Carlota foi direta como nunca antes fora:

_Islaine, minha querida, a sua vida vem se complicando por conta dessa tarefa pouco honrosa com que escolheu ocupar-se. Além disso, eu sei o que você veio procurar aqui no Buriti e eu sei que ele não vai querer nem ao menos te ouvir, minha menina. Eu sei que foi muita coincidência o destino nos encontrar: eu, que perdi uma filha há 23 anos, quando ela estava quase completando um ano; você; e Gastão, que veio pra cá desesperado em busca de um lugar pra ficar. Ele chegou aqui há sete anos, dizendo que tinha responsabilidades que não podia assumir. Responsabilidades bivitelinas, pois não há semelhança alguma entre as suas crianças. Minha filha, a verdade é tão simples. - e, dizendo isso, pareceu entrar em um transe: os olhos parados, o corpo rígido. Saiu vagarosamente sem mais esclarecimentos.

A jovem, anestesiada, permanecia de pé, com uma laranja na mão. Uma pequena multidão começava a rodeá-la e afogá-la em perguntas das mais diversas naturezas. Num relance súbito de culpa, Islaine começou a chorar. Um choro baixo, de poucas lágrimas, gradativo. Aos poucos, estava com as bochechas encharcadas e já não sabia mais o que fazer. Só pode pensar em correr até o bar. Chegou gritando "Seu Gastão, seu Gastão..." e esse veio prontamente ao seu encontro.

_É verdade! - ela disse - É verdade que Alice e Roberto são seus filhos.

E fez mensão de dizer mais alguma coisa, de que logo pareceu se arrepender. Deu meia volta e saiu, um tanto mais calma, embora ainda apressada. Juntou tudo o que havia de importante em casa, assustando as crianças. E saíram, os três, ignorando todos os olhares de surpresa que tentavam arrastá-los de volta ladeira acima. Pegaram o primeiro ônibus que passou.

Dona Carlota escorregou e caiu de uma escada, ladeira abaixo. Morreu.

Seu Gastão fechou o bar e correu o mundo à procura de Islaine e dos filhos. Nunca mais se ouviu falar dele.

Islaine, que sempre procurara o pai de seus filhos, concebidos graças à profissão não regulamentada que desempenhava - a de biscate, prostituta ou como queira chamar -, fugiu de Seu Gastão logo após descobrir que ele era o 'dito cujo'. Ela ainda não via sentido no que dissera dona Carlota a respeito de uma filha perdida. Sempre morara com sua mãe, até ficar grávida e ser expulsa de casa pelas palavras "Você não é minha filha!". Palavras que delineavam um novo sentido em toda a sua vida. Um novo começo e um novo fim para uma vida repleta de coincidências infelizes. Uma lágrima correu-lhe o rosto, mas conseguiu conter as seguintes. O ônibus parou, nem ela sabe onde. E lá conseguiu emprego como faxineira numa grande empresa. Logo foi promovida a garçonete>cozinheira>chef de cozinha. E então, morando no condomínio da empresa - sem muito dinheiro ou luxo -, Islaine foi capaz de ensinar aos filhos todos os valores que julgava importantes, como sempre fizera, mas sem a culpa por não segui-los nas próprias atitudes.

2 comentários:

Vivi disse...

Adorei seu blog sempre que puder venho aqui comentar bjs...

Paulo Vitor ("Pavê") disse...

Muito bom. Simplesmente... muito bom!