segunda-feira, 12 de abril de 2010

Fechado para reforma!



Acabou a música. Saíram todos. Guardaram todas as mesas e cadeiras, baixaram as portas, apagaram as luzes, desligaram os eletrônicos. Atrás daquelas portas de metal, cessou todo o movimento já há tanto necessário à sobrevivência dos demais que por ali viviam, imprescindível, comum como o nascer do sol. O estabelecimento quase que ancorava a sanidade de cada um que passava. Nenhuma outra certeza era tão certa. Nenhuma outra realidade era tão real. Nenhum outro fato era tão factual. Nenhum outro feito era tão factível. E, agora, mal passava de meio-dia, ainda tão cedo para fechar, e, inesperadamente colocara-se um ponto, um final àquilo tudo.

Murmúrios de desespero eram audíveis para quem quer que quisesse ter ouvidos. A cidade desmoronou com sua meia dúzia de milhares de habitantes. Impossível! Eles não podiam simplesmente fechar assim: sem aviso, sem motivo, sem nada.

Uma semana depois, já desiludidos, todos os cidadãos surpreenderam-se com o que viam. "É do tamanho de um bonde.", disse um, "Maior ainda!", emendou o outro. A loja, antes toda branca e de paredes descascadas, com pouco mais de cinquenta metros quadrados, agora ocupava quatro vezes seu espaço original, desafiadora em cores fortes, estonteante. Eustáquio, um senhor de uns oitenta anos, viu a mulher que era dona da antiga loja sentada em um canto, entre uma parede lilás e uma amarela, num banco azul celeste, e logo soltou:

_Me desculpe, senhora, mas o que é que houve que a senhora fechou a sua loja e abriram esta aqui no lugar?

_Ah, senhor Eustáquio, foi tudo um mal entendido. Só estávamos fechados para reforma. - foi o que ele ouviu como resposta. Contentou-se e foi logo tratando de pegar aquilo que precisava comprar, antes que as filas dos novos caixas automatizados começassem a ficar cheias... e isso nos deixa sem um fim direito para essa história.

2 comentários:

Paulo Vitor ("Pavê") disse...

Um típico texto que nos revolta no final rsrs. Brincadeira, eu gostei!

Monique Burigo Marin disse...

O fim adequado é aquele que continua na imaginação. :))