sexta-feira, 30 de março de 2012

Dessecar.



Eu disse que meu tamanho era outro e ele insistiu que serviria. Cabeça dura, bati o pé pra mostrar que era maior e ele, insensato, continuou a querer me desvendar e me caber. Não cabe, eu repeti. Adapta-se, suspirou. E adaptou-se. Moldou-se a tudo, da minha intransigência ao meu medo; do meu carinho à minha dúvida; de vênus, a mar-te.

Cedi. Não ficou bom no primeiro pé que experimentei, me impedi de tentar com o outro e ele me julgou. É preciso ter coragem, gritou, Eu tenho, respondi, Mas não é de falta de coragem que peco e sim de falta de vontade, e saí. Se esse é o único modelo que você quer mostrar, eu sinto, mas é sapato que jamais me servirá.


Um acabar seco, sem eco,/ de papel rasgado/ (nem sequer escrito). Carlos Drummond de Andrade

3 comentários:

Emanuel disse...

Oi Fer, tudo bem?
Fiquei meia hora olhando pro vazio no monitor depois que li seu texto. Ou, talvez, fiquei meia hora olhando prum vazio aqui dentro que, aparentemente, encontrava eco naquilo que meus olhos liam.
Fiquei pensando.

Jaci Macedo disse...

Apenas força para aceitar coisas que não se pode mudar. Não adianta querer algo que não serve. Texto lindo, de verdade.
Beijo, coração.

Monique Burigo Marin disse...

Tamanho único sempre me irritou profundamente. Eu, que tenho a maior dificuldade para servir em alguma coisa.
Pergunto-me se a Cinderela poderia ser outra. Uma em quem o sapato não serviu porque correu tanto - tanto, tanto -, para encontrá-lo, que os pés incharam.
Lindo texto!