sexta-feira, 29 de maio de 2009

Chapezinho Vermelho - Millôr Fernandes



"Era uma vez (admitindo-se aqui o tempo como uma realidade palpável, estranho, portanto, à fantasia da história) uma menina, linda e um pouco tola, que se chamava Chapeuzinho Vermelho. (esses nomes que se usam em substituição do nome próprio chamam-se alcunha ou vulgo).

Chapeuzinho Vermelho costumava passear no bosque, colhendo sinantias, monstruosidade botânica que consiste na soldadura anômala de duas flores vizinhas pelos invólucros ou pelos pecíolos; mucambés ou muçambas, planta medicinal da família das caparidáceas; e brincando aqui e ali com uma jurueba, da família dos psitacídeos, que vivem em regiões justafluviais, ou seja, à margem dos rios.

Chapeuzinho Vermelho andava, pois, na floresta, quando lhe aparece um lobo, animal selvagem carnívoro do gênero cão e... (um parênteses para os nossos pequenos leitores — o lobo era, presumivelmente, uma figura inexistente criada pelo cérebro superexcitado de Chapeuzinho Vermelho. Tendo que andar na floresta sozinha, natural seria que, volta e meia, sentindo-se indefesa, tivesse alucinações semelhantes.).

Chapeuzinho Vermelho foi detida pelo lobo que lhe disse: (outro parênteses; os animais jamais falaram. Fica explicado aqui que isso é um recurso de fantasia do autor e que o Lobo encarna os sentimentos cruéis do Homem. Esse princípio animista é ascentralíssimo e está em todo o folclore universal.) Disse o Lobo: Onde vais, linda menina? Respondeu Chapeuzinho Vermelho: Vou levar estes doces à minha avozinha que está doente. Atravessarei dunas, montes, cabos, istmos e outros acidentes geográficos e deverei chegar lá às treze e trinta e cinco, ou seja, uma hora e trinta e cinco minutos da tarde.

Ouvindo isso, o Lobo saiu correndo, estimulado por desejos reprimidos (Freud: Psychopathology Of Everiday Life, The Modern Library Inc. N.Y.). Chegando na casa da avozinha ele engoliu-a de uma vez — o que, segundo o conceito materialista de Marx indica uma intenção crítica do autor, estando oculta aí a idéia do capitalismo devorando o proletariado — e ficou esperando, deitado na cama, fantasiado com a roupa da avó. Passaram-se quinze minutos (diagrama explicando o funcionamento do relógio e seu processo evolutivo através da História).

Chapeuzinho Vermelho chegou e não percebeu que o lobo não era sua avó, porque sofria de astigmatismo convergente, que é uma perturbação visual oriunda da curvatura da córnea; nem percebeu que a voz não era a da avó, porque sofria de Otite, inflamação do ouvido; nem reconheceu nas suas palavras, palavras cheias de má-fé masculina, porque afinal, eis o que ela era mesmo: esquizofrênica, débil mental e paranóica - pequenas doenças que dão no cérebro, parte-súpero-anterior do encéfalo (a tentativa muito comum da mulher ignorar a transformação do Homem é profusamente estudada por Kinsey em Sexual Behavior in the Human Female. W. B. Saunders Company, Publishers.).

Mas, para salvação de Chapeuzinho Vermelho, apareceram os lenhadores, mataram cuidadosamente o Lobo, depois de verificar a localização da avó através da Roentgenfotografia. E Chapeuzinho Vermelho viveu tranqüila 57 anos, que é a média da vida humana segundo Maltus, Thomas Robert, economista inglês nascido em 1766, em Rookew, pequena propriedade de seu pai, que foi grande amigo de Rousseau."


4 comentários:

Mari disse...

"...o que, segundo o conceito materialista de Marx indica uma intenção crítica do autor, estando oculta aí a idéia do capitalismo devorando o proletariado ..." Cara, eu simplesmente adoooro Millôr Fernandes !! hahahahaha

Karol disse...

IHUSAIUSHAIUHSIAUHSIUA' adorei essa historiaa, muito originaaal ! ;D

ferusth disse...

perfeito, perfeito, perfeito!!! eu adoro esse cara! muito bom!!!

melrusth disse...

adorei! muito booom mesmo :D